Por que Devemos nos Autoconhecer?

Por Osvaldo Quelhas (26/07/2005)

1. Uma Pequena História
Para compreendermos o porquê de nos autoconhecer, lhes contarei uma pequena história: maravilhosa e simples por si mesma.
Sócrates, famoso filósofo grego, é o personagem de nossa pequena história. Quando era jovem, ficava refletindo sobre qual seria o objetivo de sua vida, o que faria dali para frente naquela época para descobrir o que se deveria fazer da vida. As pessoas iam consultar o oráculo, então, Sócrates resolveu ir ao oráculo mais importante e famoso: o Oráculo de Delfos.
O deus Apolo tinha aparecido nas proximidades da ilha em forma de golfinho, e, em grego, golfinho era delfinho, assim, o oráculo ficou conhecido como o Oráculo de Delfos, ou "Oráculo do golfinho".
Chegando à ilha, Sócrates subiu a longa escadaria que levava ao oráculo, e, ao chegar a seu frontão, leu as seguintes palavras escritas nele:

"HOMO, NOSCE TE IPSUM", que quer dizer: HOMEM, CONHECE-TE A TI MESMO.

Sócrates ficou muito impressionado com aquelas palavras, pois elas diziam que era necessário primeiro se autoconhecer para depois conhecer o Universo e os Deuses; e quem não se autoconhecia, não poderia nunca conhecer os mistérios do Universo, pois se desconhecia até a si mesmo, como poderia conhecer o resto?
Refletindo sobre estas palavras, Sócrates adentrou no sagrado Oráculo e consultou a pinotiza, que recebia as mensagens dos deuses.
Enquanto esperava, Sócrates refletiu sobre sua própria ignorância, pois sabia que não conhecia a si mesmo ainda e queria perseverar no autoconhecimento.
A resposta do Oráculo o surpreendeu em muito:
? Oh Sócrates! Não existe homem mais sábio do que você!
? Como pode ser ? pensou Sócrates ? se reconheço a minha própria ignorância!
A partir daquele momento, ele começou a investigar aqueles que se diziam os grandes sábios da terra, os grandes oradores, artistas, políticos. Ele descobriu que eles possuíam tão somente algum dom ou qualidade, porém não se autoconheciam, tinham apenas teorias e conceitos contraditórios que não eram baseados na observação prática, no autoconhecimento.
É claro que estes "grandes sábios" acabavam se contradizendo em suas palavras, pois a mente de quem não se auto-conhece é confusa como um labirinto, porém, como a pessoa não se autoconhece, acredita que tudo é organizado e bonito.
Sócrates descobriu que, além de ignorantes, pois não se autoconheciam, estes falsos sábios acreditavam que eram sábios, que tinham vastos conhecimentos sobre si mesmos e sobre o universo baseados em suas teorias e conceitos: eles brigavam entre si em busca de discípulos e seguidores, em busca de fama e glória.
Sócrates, com suas perguntas, levava esses eruditos e falsos sábios a terríveis contradições, e, em vez de reconhecerem sua ignorância, estes se enchiam de ira contra Sócrates.
Para se auto-aperfeiçoar, descobrir os defeitos e vícios que nos fazem tanto mal e também aos nossos semelhantes, o primeiro passo é este: RECONHECER NOSSA PRÓPRIA IGNORÂNCIA. Devemos chegar diante da inscrição do oráculo e ver que ainda não nos autoconhecemos, que o conhecimento que temos de nós mesmos se baseia em teorias e conceitos, não na observação direta e prática.

"Sei que nada sei."

Com estas palavras, Sócrates resumiu este primeiro passo do estudante: reconhecer sua ignorância.
Reconhecida a ignorância, passamos a segunda etapa do autoconhecimento, esta etapa Sócrates chamou de maiêutica, que significa técnica de trazer a luz e consistia em uma homenagem à sua mãe, que era parteira.
Nesta fase, são entregues as chaves que o estudante utilizará para se autoconhecer, pois o autoconhecimento não pode ser ensinado, mas, tão somente, ser aprendido.
De forma semelhante, aproximamo-nos de alguém e lhe entregamos uma chave de uma casa. Em seguida, apontamos e indicamos meios de chegar à casa. Então, a pessoa vai com a chave, abre a porta e descobre o que existe lá dentro por si mesma. É assim que ocorre o autoconhecimento. Os Mestres sempre entregam as chaves, mas cabe a nós a ida e a abertura da porta do nosso próprio interior.
O fim desta História é muito conhecido: os mesmos homens que Sócrates desmascarou e suas falsas sabedorias foram os responsáveis pelo seu julgamento, onde ele foi obrigado a tomar a planta cicuta, morrendo envenenado.
Os Mestres que entregam o conhecimento sempre são perseguidos e incompreendidos, pois as pessoas acreditam que já são justas, virtuosas e até sábias. O autoconhecimento é tremendamente revolucionário e nos faz comungar com todo o Universo e com Deus.

2. Uma Pequena Simbologia
Imaginemos que desde o nascimento vivemos em um vale imerso em névoas brancas onde seja difícil ver os contornos dos objetos e ver as coisas claramente. Neste vale, andamos meio perdidos, sem saber para onde vamos ou o que podemos encontrar. De repente, podemos estar à beira de um precipício sem que sequer saibamos.
Mas esse vale tem muitos atrativos: pomares com frutas muito boas e deliciosas, sombra confortável embaixo das árvores e, com todos esses atrativos, ninguém pensa em abandoná-lo.
Porém, saindo deste vale, há um caminho pedregoso e seco que sobe uma encosta: é um caminho estéril e difícil, mas, que, ao longe, se divisam alguns raios do Sol.
Aqueles que buscam a Luz e podem ver as coisas mais claramente devem seguir esse caminho, abandonando as frutas e a sombra das árvores para em troca receberem um caminho cheio de pedras e árvores secas.
Quem estaria disposto a abandonar as coisas do vale pelo caminho difícil? Só quem ama a Luz do Sol, clara e cristalina.
À medida que avançamos no caminho difícil e estreito, veremo-nos cada vez mais longe daquelas frutas deliciosas, mais e mais pedras pontiagudas surgirão no chão, mais secas serão as árvores e um vento frio de morte soprará ao nosso redor.
Porém, também, nossos olhos irão gradualmente vendo mais e mais coisas: poderemos ver acima da névoa gigantescas montanhas cobertas de neve, começaremos a ver enormes precipícios onde muitos caem, e, com nossa visão guiando nossos passos, desviaremo-nos sempre destes terríveis precipícios.
Veremos claramente uma majestosa montanha, e, em seu topo, o Sol brilhando luminoso. A caminhada será difícil e árdua, mas, à medida em que subirmos, diante de nossos olhos irão se descortinando um horizonte infinito.
Quando chegarmos ao topo da montanha, os raios do Sol nos esquentarão e nos sentiremos quentes, ao contrário do frio e do adormecimento do vale cheio de névoas. Lá, estendendo os braços ao infinito, nos transformaremos em águias e voaremos pelo espaço sem nenhum limite.


Poderemos subir e descer à vontade, ver todo o horizonte sem nenhuma barreira aos nossos olhos e nos alimentaremos da própria luz do Sol assim como as plantas o fazem.
Então, olharemos para baixo e veremos o lugar de onde viemos e ficaremos cheios de compaixão e tristeza: veremos seres perdidos, vagando como sonâmbulos, caídos, prostrados, brigando entre si pelas frutas, sujos com o lodo da terra, estendidos e rastejando no chão; veremos as frutas como realmente são: sujas e cheias de vermes invisíveis aos olhos adormecidos; veremos muitos rolando a um abismo profundo: alguns machucados, outros chorando, alguns praticando violências e outros roubando. Tudo isso na densa névoa do vale profundo.
E, cheios de compaixão, voltaremos ao vale e, sentando em uma das árvores, mostraremos com nossas asas luminosas o caminho difícil e pedregoso e muitos gritarão: Somos justos! Somos bons! Mas alguns poucos olharão sua própria miséria interior e, abandonando tudo, buscarão trilhar o caminho que leva à Luz.


3. Explicando a Simbologia
É claro que isto lembra um pouco os Homens na Caverna de Platão e o livro Fernão Capelo Gaivota de Richard Bach: nos dois casos a analogia representa o caminho do autoconhecimento, o caminho até a Auto-Realização Íntima do Ser.
Estamos em um mundo adormecido: as frutas e a sombras das árvores representam os prazeres da vida que nos aprisionam. Além da névoa do adormecimento interior que não nos permite ver a realidade das coisas.
À medida que renunciamos aos desejos, aos nossos defeitos, nossa visão irá aumentando. À medida que subimos o caminho, a visão passa a representar a Consciência que vai se despertando em nós: vamos ficando cada vez mais conscientes de nós mesmos e do universo à nossa volta.
No caminho, vamos morrer devido aos nossos defeitos. Por isso, o vento frio da Morte e, à medida que morrermos, sentiremos mais e mais a Luz e o calor do Sol, ou seja, o nosso Real Ser: aproximaremo-nos mais e mais de Deus.
É claro que quando nos transformarmos em seres de Luz (águias na nossa simbologia) teremos a verdadeira Liberdade e Felicidade, seremos plenamente conscientes e conheceremos tudo, nos tornaremos mestres e ajudaremos toda a humanidade, mostrando a ela o caminho.
Sermos perfeitos, felizes, conscientes e livres: eis o motivo para nos autoconhecermos, estando conscientes de que decidimos escolher o caminho que leva à Luz do Ser e à Sabedoria. Comecemos então o nosso curso com a nossa primeira lição:

4. O que Fizemos de Nossas Mãos?
Amanheci hoje com um enorme desejo de beijar minhas mãos. As mãos são uma das nossas maiores bençãos. Já imaginou você acordar sem elas? Mas quem tem um espírito forte, se sente feliz até mesmo sem mãos e sem olhos. E eu digo isso porque vi, outro dia, uma jovem sem braços, sorrindo para a manhã de sol. Ela parecia uma colegial em férias. Eu vi essa cena e muito me comovi. Não só me comoveu como me serviu de lição.
Fomos beneficiados com duas mãos. E elas trabalham juntas. Já disse o ditado que "uma mão lava a outra e as duas lavam o rosto". Está aí uma grande lição. Impossível a mão direita se lavar sozinha e vice-versa. Uma precisa da outra. Está aí um grande ensinamento que a vida nos dá. O ensinamento da solidariedade.
É verdade que eu amo todo o meu corpo. Essa preciosidade biológica que suplanta a preciosidade tecnológica de um computador. Acontece que somos em geral péssimos administradores do nosso próprio corpo, que não foi fabricado, mas criado, que não foi comprado, mas dado. Corpo que envenenamos com álcool, fumo, gorduras e produtos químicos.
Mas... e as mãos? Vejo-as neste momento digitando neste teclado de computador, numa subserviência comovedora. Subserviência ao cérebro que a dirige. Daqui a pouco, vou ao banho e o que seria dele sem elas? Pouco mais, na refeição são elas que me ajudarão no ato da alimentação. Mal entro no carro e são elas que pegam a chave do veículo, que puxam o cinto de segurança, que seguram o volante. E mais adiante vejo-as acenando para os amigos que vou encontrando no caminho. Elas, muitas vezes, falam por mim. Sim, as mãos falam. Os deficientes visuais têm nelas os olhos que lhes faltam. Dizem que nelas está escrito o mapa de nossa vida, assim como de nossa identidade.
Mãos de operários, mãos de pianistas, mãos de policiais, mãos de marginais, mãos que ajudam, mãos que dão vida, mãos que violentam, mãos de boxeador, mãos que acariciam, mãos que pedem perdão, mãos que arquitetam vinganças, mãos que curam, mãos que plantam, mãos que agradecem, mãos que assinam, mãos que assassinam, mãos que apontam caminhos. Mãos que escrevem, mãos que falam por aqueles que não podem falar... Mãos que hipnotizam multidões. Mãos de Hitler. Mãos que acenam saudades, mãos que erguem brindes de confraternização. Mãos culpadas. Mas elas não são culpadas de serem mal dirigidas. Elas apenas obedecem às ordens que lhes damos. São apenas instrumentos. Tanto podem salvar uma vida através da cirurgia como podem expulsar um filho do útero, como um intruso. Ah, as mãos que abortam! Mãos que pedem para os outros. Mãos do padre Zé Coutinho. Mãos que limpam lepra. Mãos de Madre Tereza de Calcutá, mãos que trazem mensagens do outro lado da vida. Mãos de Chico Xavier.
Pois é leitor, como disse no início, amanheci hoje de manhã com um desejo enorme de beijar minhas próprias mãos. Mas por que só as mãos? É que elas são fáceis de serem beijadas. Como poderia beijar meus olhos, beijar meu coração, beijar meus pés? Ah, os pés!... Que seria de minhas caminhadas sem eles?
Mas esta crônica é para as mãos. As mãos merecedoras de muitos beijos. Sei que elas só descansam durante o sono, quando estamos imobilizados, ou quando morremos. Aí elas nada mais podem fazer por nós. Que responsabilidade possuirmos mãos! Quando chegar a hora de deixar este mundo, uma pergunta nos perturbará: "afinal, o que foi que fizemos de nossas mãos?"

5. Ditadura dos Costumes
Ah, os costumes! Como eles estão presentes na nossa vida, no nosso dia-a-dia! Ainda bem que há uma lei chamada Evolução que, aos poucos, vai tornando os costumes obsoletos e ridículos.
Veja o chapéu. Outrora, era desrespeitoso e imoral andar com a cabeça descoberta. Do doutor ao homem do povo, todos traziam os seus chapéus sem esquecer o paletó.
Peguem uma foto antiga da nossa cidade mostrando uma aglomeração de pessoas e veja que ninguém traz a cabeça vazia. E isso num clima quente como o nosso. O blusão, a camisa esportiva era coisa que não se via. Havia um pudor exagerado de não expor a pele...
Assim como o chapéu, era moda de antigamente o cabelo comprido da mulher. Mulher de cabelo curto só a prostituta usava. Minha mãe, que usava cabelos longos lá em Alagoa Nova, certa vez veio visitar a capital e aqui verificou que o cabelo curto estava virando moda. Ela, então, resolveu se desfazer daquele belo ornamento: a cabeleira que ia até a cintura. Foi um escândalo em Alagoa Nova. Ninguém quis acreditar que dona Piinha viesse tão moderna. E vá ver que até o padre da paróquia censurou a novidade.
Hoje, pelo contrário, uma mulher de chapéu, não deixa de ser ridículo. E eu fico a indagar: por que não questionamos os costumes? Por que nos sujeitamos aos seus ditames? Por que achar que determinado vestido não assenta para uma pessoa idosa? Por que o idoso não deve usar roupas coloridas, alegres? Preconceito estúpido, irracional. Por que não é imoral hoje uma mulher vestir uma calça comprida? Por que a mulher não cobre mais o rosto com o véu nas igrejas? Tal fato considerado, outrora, irreverente e pecaminoso.
E que dizer da bengala? Pois, antigamente, todo homem a usava. Fazia parte da elegância masculina. Mas por que a mulher não usava também bengala? Não se sabe. Costume é como dogma da Igreja, nada de discussão. Ai da evolução, do progresso, se não houvessem os questionamentos!
Modernamente, apareceu o costume ou moda da calça jeans: um tecido grosso e feio, mas que todo mundo passou a usar. Além de grosso, muito quente para o nosso clima. E há quem a use rasgada. Fica mais chique. Até que ponto chega a depravação do gosto de uma pessoa!
O paletó e a gravata continuam resistindo ao tempo. Há lugares em que o seu uso é obrigatório. Os executivos adoram camisa com gravata sem o paletó. Além dos executivos, os pastores da Igreja Universal e os garçons.
Cabelo partido pelo meio, brilhantina, tudo isso está fora de moda. Tudo isso é cafona, demodé...
Costumes de indumentária, costumes de comportamento, costumes e mais costumes, variando de lugar para lugar, de pessoa para pessoa, como tudo isso às vezes se torna ridículo, sem razão de ser!
Dizem que na Turquia é de bom tom, num jantar, o convidado dar, após a refeição, um sonoro arroto. Prova de que gostou da comida oferecida pelo dono da casa...
Gandhi, o grande missionário da Índia, fiel aos costumes da época e da terra, vestia-se com uma longa túnica. Pois bem, não é que ele foi barrado no Vaticano por estar assim vestido?... Queriam-no de paletó e gravata, embora o Papa não se desfizesse de sua batina branca...

6. Autoconhecimento
Acreditamos, em muitos momentos, que as situações em conflito e as dificuldades sejam oriundas de fatos ou de atitudes pessoais exteriores a nós. As nossas primeiras tentativas dizem respeito a obter respostas para as nossas dúvidas e incertezas no exterior de nós mesmos. Com o tempo, nos damos conta de que elas se encontram em nosso próprio interior. Segundo Kant, nós nada sabemos do "mundo em si", sabemos somente do"mundo em nós".
O "mundo em si", objetivo, não nos afeta. O que nos afeta é o "mundo em nós", isto é, a impressão subjetiva que nós temos do mundo objetivo. Os "males" da vida nos atormentam porque pertencem ao nosso mundo objetivo, criado pela ignorância do nosso ego. A partir do momento em que o nosso ego ignorante toma consciência do Eu sapiente, os males se dissipam.

7. "Budismo: Psicologia do autoconhecimento", por Carolina Pacheco
Nos últimos anos, o mundo ocidental se viu invadido (no melhor sentido, é claro) pela cultura oriental, seja através do aspecto da saúde com a acupuntura, do aspecto físico e mental com a ioga, da harmonização dos ambientes com o feng shui, entre outras vertentes. No que diz respeito à religião, tal fato também se confirma: é o que se pode falar do Budismo, que ganha cada vez mais adeptos no Brasil e no mundo.
O Budismo tem sua origem na Índia aproximadamente no século VI a.C. Não é tido exatamente como uma religião, e sim como uma filosofia de vida, uma doutrina que prima pelo caráter psicológico. Uma forma de vida: é o que afirma Georges da Silva e Rita Homenko na obra que dá nome à essa matéria. O Budismo possui um ar ecumênico, pois se baseia em aspectos filosóficos, psicológicos e morais e não impede que o praticante professe a religião que quiser.
"Evitar o mal, fazer o bem, purificar a mente". Pode-se dizer que esses são os preceitos que devem abraçar os que ingressam no Budismo. O Budismo baseia-se em princípios que são: o reconhecimento da existência do sofrimento, a verdade da causa do sofrimento, "o eterno auge da felicidade" ? o Nirvana, e o verdadeiro caminho que leva à cessação do sofrimento, o Nobre Caminho Óctuplo: o Caminho do Meio. Para o Budismo, é o homem que traça seu caminho, seu próprio destino e através do seu esforço e dedicação ele pode libertar-se da ignorância e do sofrimento. O homem não deve apegar-se a nada, deve viver integralmente o momento presente e libertar-se dos rótulos e condicionamentos. Em entrevista à revista IstoÉ (maio de 2001), a cantora Elba Ramalho afirma: "Não me considero de nenhuma religião; eu busco Deus. Tenho em casa um santuário com imagens de Jesus, Maria, Buda e quadro de espíritos amigos. O grande barato do Budismo é a forma como se trabalha a mente ? um portal que está aberto para estados elevados. Ensina como viver bem e morrer bem, a promover a paz interior e harmonizar-se com o universo".
Antes de atingir a completa Iluminação, Buda (que em Sânscrito quer dizer o Iluminado) era conhecido como príncipe Sidarta Gautma e abandonou a família e as riquezas para buscar respostas para sua existência. Vale ressaltar que Buda nunca escreveu nada, o que foi ensinado por ele se deu oralmente. Seus discípulos, através do tempo, é que foram escrevendo e formulando os tratados. Tal fato gerou várias interpretações e formaram-se diferentes escolas que se agruparam em duas correntes: a Escola Theravada (Escola dos Anciãos), mais ortodoxa e sem influências místicas e a Escola Mahayana, preocupada com aspectos sociais e com a ajuda ao próximo. Com o tempo, o Budismo chegou a vários países, ganhando interpretações diferenciadas e, ao longo de seus 2500 anos, adotou cultos e rituais que não têm relação com os preceitos originais de Buda.
O IBGE registrou em 1991 no Brasil a existência 236.403 praticantes do Budismo. Contudo, os números não são precisos. Só uma linhagem dele, a Associação Brasil Soka Gakai (BSGI) conta com 150 mil. A BSGI tem como essência a crença de que uma transformação fundamental na vida de cada um leva à transformação da sociedade. A vinda do Dalai Lama (maior líder espiritual do Budismo) ao Brasil, em 1999, ajudou a popularizar a filosofia budista. Seus livros estão entre os mais vendidos do ramo, entre eles A Arte da Felicidade.
Einstein resume: "A religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a Teologia. Abrangendo os terrenos material e espiritual, essa religião será baseada num certo sentido religioso procedente da experiência de todas as coisas, naturais e espirituais, como uma unidade expressiva ou como a expressão da Unidade. O Budismo corresponde a essa descrição." Falou e disse!

A essência da doutrina budista é simples:
1. toda a vida é sofrimento;
2. as origens do sofrimento são o desejo egoísta e os apegos de qualquer tipo;
3. a extinção do sofrimento é obtida pela cessação dos desejos egoístas e dos apegos;

4. o caminho que conduz à libertação do sofrimento é o Nobre Caminho Óctuplo, que segue as seguintes regras:

- o entendimento correto;
- o julgamento correto;
- a palavra correta;
- a ação correta;
- o modo de vida correto;
- o esforço correto;
- a atenção, a memória e a consideração corretas;
- a meditação.

Fonte: Revista IstoÉ


A demasiada atenção que se dedica a observar os defeitos alheios, faz com que se morra sem ter tido tempo para conhecer os próprios.
La Bruyère
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A distância mais longa é aquela entre a cabeça e o coração.
Thomas Merton
. . .
A solidão não existe para uma pessoa que escuta a si mesma.
Célio de Castro
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A vida começa quando descobrimos que estamos vivos.
Henrik Tikkanen (pintor e escritor finlândes)
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Assim como os universos foram criados pela palavra de Deus, assim também nossos pequenos mundos individuais são criados pelas nossas palavras.
do Livro Minutos de Sabedoria
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Cada um é o resultado do que pensa e do que faz.
Autor Desconhecido
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De nada nos valerá o conhecimento de todas as ciências do mundo, de tudo que está fora de nós, se não nos conhecemos a nós mesmos.
do Livro Minutos de Sabedoria
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O homem ignorante não é o homem sem instrução; é aquele que não conhece a si próprio.
Krishnamurti
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O homem mais poderoso do mundo é aquele que é dono de si mesmo.
Autor Desconhecido
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Para nos tornarmos pessoas de mérito e de valor, o que há de mais certo em nós é confiarmos em nós mesmos.
Miguel Ângelo
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Procurei felicidade por este mundo sem fim, sem saber que na verdade ela estava dentro de mim.
Dinamor
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Quando duas pessoas se encontram há , na verdade , seis pessoas em presença: cada pessoa como vê a si mesma , cada pessoa como a outra a vê e cada pessoa como realmente é.
William James
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Quando eu disse ao caroço da laranja que dentro dele dormia um laranjal inteirinho, ele me olhou estupidamente incrédulo.
Hermógenes
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Ser homem é ter dúvidas, e mesmo assim continuar o seu caminho.
Paulo Coelho
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Todo ser é completo por si.
Frei Leonardo Boff
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Todos nós somos um mistério para os outros e para nós mesmos.
Érico Veríssimo
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Um cuidadoso exame de nossas experiências passadas pode nos revelar o fato surpreendente de que tudo o que aconteceu foi para o nosso bem.
Henry Ford


8. As Regras do Jogo


8.1. Aprender a Ouvir
Antes de tudo, é necessário que estabeleçamos uma conversa sincera entre nós para que possamos apreender uns com os outros. Se essa conversa sincera não se estabelecer, este estudo não será proveitoso.
Ocorre que, hoje em dia, as pessoas não sabem "ouvir". Ouvir verdadeiramente é algo difícil nos dias atuais, é uma faculdade perdida na correria do trabalho e dos compromissos. É necessário parar e com calma ouvir o que os outros têm a dizer sem nenhum preconceito.
O que acontece é que quando achamos que estamos ouvindo alguém falar, colocamos nossos conceitos como barreiras, traduzindo as palavras que nos dizem ao nosso modo. Desta forma, cheios de preconceitos, fica difícil estabelecer o contato, sendo necessário o despojamento das idéias preconcebidas para escutarmos o novo.
Algo semelhante ocorre quando alguém fala a palavra "árvore". Imaginamos a árvore, porém a palavra "árvore" não é a árvore. Nem sequer como imaginamos a árvore é a árvore. Para vermos a árvore é necessário olhá-la atentamente, olhar seus galhos sem ficar raciocinando, apenas observando e contemplando; ver suas folhas, os seus movimentos, o vento balançando seus galhos lentamente. Então, veremos a árvore e este ver será muito diferente do conceito, da palavra "árvore".
Assim, uma coisa é o conceito, outra é a observação direta. Dessa forma, também devemos nos despojar de nossos conceitos e aprender a "ouvir" e "ver", contemplar e refletir sobre as coisas e aplicar esta reflexão no dia-a-dia.
Quando alguém nos fala, devemos estar abertos às suas idéias e pensamentos e não nos colocarmos numa atitude fechada e defensiva. Devemos conversar aqui e agora como amigos que procuram trilhar o mesmo caminho.
Os nomes, os títulos, os conceitos, só são barreiras para o diálogo, portanto, os abandonemos como as roupas velhas. Aqui, falaremos sobre uma única coisa: Como melhorar a nós mesmos, como nos auto-aperfeiçoarmos através do auto--conhecimento.


8.2. Digerir o Ensinamento
A segunda regra para poder ler este pequeno tratado digital e ajudar o seu aperfeiçoamento é ler com calma lição por lição.
Quando comemos, mastigamos lentamente o alimento. Depois, o nosso corpo o digere muito bem antes da próxima refeição. Assim, o alimento irá nos nutrir, dando forças ao nosso corpo para todas as nossas atividades diárias.
Da mesma forma, devemos ler e refletir sobre o que estamos lendo (mastigar as palavras) e, depois de ler uma lição, devemos levá-la à prática, vivenciá-la. Antes de passar a lição seguinte, devemos vivenciar, senão, será mais um alimento inútil em nosso cérebro, ocupando espaço no sótão de nossa mente.
Após estudar uma lição, devemos levá-la à prática até atingir a compreensão total sobre ela. Após isso, passaremos à lição seguinte, assimilando novas "chaves do autoconhecimento" e continuando sempre da mesma forma.

8.3. Ninguém é mais do que ninguém
Ninguém aqui é mais do que ninguém. Todos nós somos estudantes, querendo nos aperfeiçoar, tornando-nos mais perfeitos, felizes, conscientes e iluminados.
Vários Mestres entregaram este ensinamento, de diversas formas, tal como um professor de escola se interessa apenas pelo aprendizado de seus alunos, ou seja, que os alunos coloquem o ensinamento em prática e mudem suas vidas, que se melhorem, que sejam felizes, que tenham paz, sabedoria e amor. É nisso que devemos nos centrar.
Ocorre que muitos alunos, em vez de aprender o que os seus professores ensinam, os endeusam e os adoram, colocando os seus mestres em altares para que sejam adorados. Essa é uma atitude errada. O que devemos fazer é seguir os nossos próprios passos, nos autoconhecermos, pegar essas valiosas chaves que nos foram ensinadas e praticá-las. Não devemos ficar "dormindo" em cima de ídolos de barro, querendo nos prender em gaiolas de ouro.
Samael Aun Weor (1917-1977) e Krishnamurti (1896-1986) foram dois mestres que entregaram "as chaves" para a humanidade, mas infelizmente ambos foram endeusados. Portanto, vamos fazer agora o correto: pegar estas "chaves", simples e diretas, praticá-las em nossas vidas e os resultados serão extraordinários e imediatos.

Resumo do Capítulo:

- Devemos apreender a ouvir, apreender a prestar atenção sem preconceitos;
- Devemos ler com calma, levando-nos à reflexão e à prática;
- O ensinamento e a sabedoria estão dentro de nós mesmos e é através do autoconhecimento que nos conheceremos.

9. Quem Somos?
Há muito tempo nos vemos às voltas com esta questão: quem somos? Procurar desvendar-nos é uma prática muito cara a nós, humanos. E nos tempos de hoje, quando a tecnologia já vai longe, somos obrigados a reconhecer que a habitação de espaços antes insondáveis não se faz necessariamente com o acompanhamento da habitação de "nosso próprio coração".
Faz-se, então, sempre urgente que continuemos perguntando: "quem sou?" E ainda mais estimulados pelos novos conhecimentos acerca do ser humano, devemos acrescentar ao "quem sou?" outras perguntas: "quais as necessidades que eu tenho?", "como tenho cuidado de mim?" e "de que modo estou expressando-me no mundo?". São questões que falam do nosso velho/novo interesse no autoconhecimento.
Quando olhamos o desenrolar da vida humana, concluímos que, por um lado, o caminho da vida constitui-se em sermos gestados, depois nascemos, tornarmo-nos crianças, adolescentes e adultos. Nessa ordem, está previsto amadurecermos e ajudarmos a dar continuidade à humanidade; envelhecermos e morrermos para essa mesma vida. Mas, por outro lado, a vida é mistério, é "decifra-me ou devoro-te"; a vida humana é uma possibilidade sempre aberta de construção de novas humanidades; é um "estar indo sem ir" a um determinado lugar.
E é exatamente pelo fato de tentarmos juntar esses dois aspectos do viver ? o da ordem e o do mistério, que sentimos a necessidade de aprofundar a visão de nós mesmos, interrogando-nos sobre como estamos vivendo a nossa vida.
"Como nasci?", "que espécie de crescimento tem sido o meu?", "quais escolhas venho me permitindo fazer?", "que valores humanos estão sendo por mim abraçados?", são perguntas ao mesmo tempo complexas e singelas que podem nos guiar na direção de pequenos mergulhos e descobertas fundamentais para ativarmos uma expansão de nossa vida emocional.
Muitas pessoas têm percorrido esse caminho de busca da revelação ampliada de si mesmo, lançando mão de recursos diversos. Como acompanhante do trabalho psicoterapêutico de alguns desses buscadores, permito-me aqui descrever, de modo muito sucinto, alguns momentos dessas procuras.
Carla é uma professora dedicada. Apoiada em sua experiência psicoterapêutica, deu-se conta de que quando estava simplesmente sendo olhada por alguém, direto nos olhos, sentia-se muito incomodada. Já havia desenvolvido, sem perceber, um jeito de tensionar os olhos, provocando um sutil desfocamento da visão; dessa maneira, regulava o seu próprio olhar para que "não enxergasse", no olhar do outro, algo que a "ferisse". Carla, com a sua já automatizada falta de foco, experimentava um conforto, uma espécie de segurança emocional, que a ajudava a estar diante do outro, do público ? seus alunos. Porém, não podia sentir-se acariciada por um olhar de admiração: a mesma falta de foco a impossibilitava.
Carla propõe-se reaprender a olhar e a se deixar ver. Descobre que precisa ir devagar: há importantes acontecimentos emocionais, histórias de sua vida infantil que estão relacionadas a essa forma de ser. Ela compreende que seu mundo interno não pode sofrer uma "cirurgia reparadora". Portanto, quer trilhar um caminho gentil consigo mesmo. Aspira a transformar algo em si mesma, ansiosamente. Talvez, Carla esteja entrevendo a possibilidade de vir a sentir-se mais substancialmente amada.
João, um homem inteligente e maduro, ficou gravemente doente. Ele sabia tudo o que precisava fazer em relação à sua doença e o fazia. Escolheu os médicos mais competentes para "assessorá-lo" no seu tratamento. Instruiu-se sobre as perspectivas da medicina alternativa e acrescentou esse cuidado ao conjunto de recursos terapêuticos que já usava. Sabia exatamente o que dizer e a quem dizer o quê... Dessa maneira, estava curando-se competentemente.
Queria acrescentar mais um cuidado, o cuidado da psicoterapia. E começamos um trabalho. Aprendemos juntos a ver como ele havia escolhido um jeito de viver baseado numa forte auto-suficiência. João costumava "brincar" de não precisar de ninguém, mesmo quando precisava. João vivia cercado de pessoas sérias; ele próprio era uma pessoa séria. Seus amigos eram interessados em fazer questionamentos honestos acerca da vida ? pessoas que combinavam bem com a sua forma auto-suficiente de ser. Porém, ele se sentia sempre emocionalmente sozinho.
No decorrer da dura experiência em lidar com a sua doença, João veio a ser questionado por uma amiga. Ela queria saber se João já havia refletido sobre as causas emocionais de sua doença, pois compreendia que somos sempre responsáveis por tudo que nos acontece, inclusive o nosso adoecer. João ficou perplexo. Embora já tivesse refletido rigorosamente sobre as causas de sua doença, sentiu-se perturbado e entristecido por ser essa a única maneira que a amiga encontrara para chegar perto dele naquele momento. Tentou alguma resposta, mas continuou sentindo-se sozinho.
Naquele momento, nascia para João, um pequeno reconhecimento emocional de sua solidão. O que mais precisava viria do apoio confortável de amigos acolhedores. Ser acompanhado, de verdade, era o que mais precisava. Sentiu-se um pouco mais enfraquecido ao se dar conta da sua real necessidade. Preocupou-se, quis voltar atrás e apagar de si aquela "réstia de luz ofuscante".
João foi além: aceitou, pela primeira vez em sua terapia, o convite para soltar sua nuca, relaxar os pensamentos numerosos e exigentes e permitir sentir-se mais vivo no seu corpo de sensações e sentimentos, buscando sentir-se ali, também pela primeira vez, mais verdadeiramente acompanhado por mim.
Pois é, no caminho do autoconhecimento, a ordem e o mistério se entrelaçam. Carla se encontra com sua impossibilidade de sentir-se deveras amada ? o que mais lhe falta. João se depara com sua inabilidade em receber e em apoiar-se quando necessário ? seu anseio maior. Muitos de nós andamos tentando construir essa ponte entre a existência e a essência de nossa humanidade. Precisamos mesmo, pois, propor-nos a experimentar, continuamente, novas maneiras de viver.

Humbertho Oliveira, Médico, Psicoterapeuta Somático, Fundador e Coordenador do Quiron - Centro de Estudos e Práticas Trans-somáticas, Rio de Janeiro

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