Bem-aventurados os Aflitos

(12/10/2011)

INTRODUÇÃO





O objetivo deste estudo é analisar a dor e o sofrimento, tanto na forma de expiação como de evolução, tendo em vista um caminho mais consciente para os nossos Espíritos




CONCEITO


Aflição - 1. Agonia, atribulação, angústia, sofrimento. 2. Tristeza, mágoa, pesar, dor. 3. Cuidado, preocupação, inquietação, ansiedade. 4. Padecimento físico; tormento, tortura (Dicionário Aurélio).

Aflição:Freqüentemente, aflição é a nossa própria ansiedade, respeitável mas inútil, projetada no futuro, mentalizando ocorrências menos felizes que, em muitos casos, não se verificam como supomos e, por vezes, nem chegam a surgir. (Equipe FEB, 1997).

CAUSA DAS AFLIÇÕES


As causas das aflições devem ser procuradas tanto no presente (atual encarnação) como numa existência passada.

Devemos partir do princípio de que elas são justas.Se assim não pensarmos, poderemos cair no erro de jogar a culpa nos outros ou em Deus.

Quer dizer, tudo o que se nos acontece tem um motivo, embora nem sempre o saibamos explicar com clareza.

Costumamos exagerar muito a questão das dificuldades e do sofrimento, dizia o Chico naquela tarde em que nos encontrávamos à sua volta. É preciso ver as coisas sob outros ângulos. Muitas vezes as dificuldades são cercas de Deus para que erremos menos. Lembro-me que, quando o personagem Ricardo do livro "Nosso Lar" preparava sua volta ao corpo, após visitar a família espiritual durante um desdobramento, os filhos indagam o que poderiam fazer por ele enquanto estivesse reencarnado, e ele responde:

- Roguem a Jesus para que eu nunca disponha de facilidades na Terra. A facilidade nunca ensinou nada a ninguém. Parece que quanto mais facilidades temos, mais insensíveis ficamos. Então, talvez o caminho seja mesmo o da dificuldade e da dor.


Chico Xavier

Assim sendo, toda vicissitude pode ser vista sob dois ângulos:

1) em vista da encarnação atual
Aqui devemos refletir sobre o sofrimento que nos visita, fazendo algumas indagações a respeito.
Em caso de doença ? será que me descuidei da alimentação?
No caso do filho escolher o caminho do vício ? dei-lhe a devida educação, os cuidados necessários?
No caso de uma querela familiar ? será que não fui injusto para com tal pessoa?

"Que todos aqueles que são atingidos no coração pelas vicissitudes e decepções da vida, interroguem friamente sua consciência; que remontem progressivamente à fonte dos males que os afligem, e verão se, o mais freqüentemente, não podem dizer: Se eu tivesse, ou não tivesse, feito tal coisa eu não estaria em tal situação" (Kardec, 1984, cap. 5, it. 4, p. 72).

2) em vista de uma encarnação passada
Não encontrando uma resposta satisfatória na presente encarnação, devemos nos reportar à encarnação passada.

Os sofrimentos por causas anteriores são, freqüentemente, como o das causas atuais, a conseqüência natural da falta cometida.
- Se foi duro e desumano, ele poderá ser, a se turno, tratado duramente e com desumanidade;
- Se foi orgulhoso, poderá nascer em uma condição humilhante;
- Se foi avarento, egoísta, ou se fez mal uso da fortuna, poderá ser privado do necessário;
- Se foi mal filho, poderá sofrer com os próprios filhos etc.
(Kardec, 1984, cap. 5, it. 7, p. 74).

FATOS GERADORES DE DOR E SOFRIMENTO



- MELANCOLIA EM RELAÇÃO A VIDA
- Descontentamento com relação à vida.
- Os maiores excitantes Melancolia são a incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro e as idéias materialistas.
- Ao contrário, a calma e a resignação, hauridas na maneira de encarar a vida terrestre, e na fé no futuro, dão ao Espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a perturbação de nosso ânimo. (Kardec, 1984, cap. 5, it. 14 a 17, p. 79 a 81)

Perda de pessoas amadas: alguns aspectos



- Mesmo acreditando na vida após a morte, há uma perda temporária, e é legítimo chorar e ficar triste.
- Por que permitimos que nossas vidas fiquem paralisadas a partir de uma grande perda, mesmo que essa perda tenha sido há seis meses, há um ano, há dez anos?

LUTO
Ponto importante para a compreensão da bem-aventurança das aflições, e fez parte das preocupações de Jesus em suas pregações.

Bem-aventurados os que choram.(tradução grega)

Outra possibilidade de tradução:

Bem-aventurados os que estão de luto. (do hebraico)

BEM AVENTURADOS


?As pessoas não são felizes porque não sabem lidar com o luto.

O que é ficar de luto? É aceitar que o passado se torne passado.

Esta aceitação é realmente uma condição de felicidade. Porque, na maior parte do tempo, o passado se projeta sobre o presente e impede que ele seja vivido plenamente.

Saber ficar de luto é uma verdadeira bem-aventurança. Aceitar que o que foi não seja mais. Aceitar que realmente o passado seja passado.
Isto não quer dizer esquecer o passado. Quer dizer apenas cessar de projetá-lo, sem cessar, sobre o presente.

Bem-aventurança é aceitar que o presente não seja o passado. É aceitar a novidade de cada instante.?

A DOR


?A dor vem realizar a obra que não foi possível ao amor edificar por si mesmo.?
Emmanuel

A dor se define, não como o objeto ou a finalidade da vida, mas como o meio que conduz os Espíritos àquele objeto e àquela finalidade.
Vinícius ? Em Torno do Mestre ? p. 66

AS TRÊS DORES


Dor-expiação - Passado
Dor-Auxílio - Presente
Dor-evolução - Futuro

Estados da Alma


- Melancolia ? Por que uma vaga tristeza se apodera de nossos corações e achamos a vida tão amarga?

- É que o nosso Espírito aspira à felicidade e à liberdade e que, preso ao corpo que lhe serve de prisão, se extenua em esforços para dele sair.Mas vendo que são inúteis, cai no desencorajamento e na languidez (Kardec, 1984, cap. 5, it. 25, p. 90).

- Infelicidade ? Vemo-la na miséria, no fogão sem lume, no credor ameaçador...

- Mas a infelicidade é a alegria, é o prazer, é a fama, é a agitação vã, é a louca satisfação da vaidade, que fazem calar a consciência. (Kardec, 1984, cap. 5, it. 24, p. 88 e 89).

- Além desses dois estados, podemos acrescentar: remorso, tormentos, apatia...

O PROBLEMA DA DOR


- Dor e Sofrimento ? a simples reflexão sobre a dor e o sofrimento basta para evidenciar que eles têm uma razão de ser muito profunda.

- A dor é um alerta da natureza, que anuncia algum mal que está nos atingindo e que precisamos enfrentar.

- Se não fosse a dor sucumbiríamos a muitas doenças sem sequer nos dar conta do perigo.

- O sofrimento, mais profundo do que a simples dor sensível e que afeta toda a existência, também tem a sua razão de ser. É através dele que o homem se insere na REFLEXÃO. (Idígoras, 1983).

- O processo de crescimento espiritual está associado à dor e ao sofrimento.

- De acordo com o Espírito André Luiz, a dor pode ser vista sob três aspectos:

1) Dor-expiação ? que vem de dentro para fora, marcando a criatura no caminho dos séculos, para regenerá-la, perante a justiça.
- É conseqüência de nosso desequilíbrio mental, ou proceder desviado da rota ascensional do espírito.

- Podemos associá-la às encarnações passadas. Muitas vezes é o resgate devido ao mau uso de nosso livre-arbítrio.

2) Dor-evolução ? que atua de fora para dentro, aprimorando o ser, sem a qual não existiria progresso.
- Na dor-expiação estão associados o remorso, o arrependimento, o sentimento de culpa etc.

- Na dor-evolução estão associados o esforço e a resistência ao meio hostil.

- Enquanto a primeira é conseqüência de uma ato mau, a segunda é um fortalecimento para o futuro.

3) Dor-Auxílio - são as prolongadas e dolorosas enfermidades no envoltório físico, seja para evitar-nos a queda no abismo da criminalidade, seja, mais freqüentemente, para o serviço preparatório da desencarnação, a fim de que não sejamos colhidos por surpresas arrasadoras, na transição para a morte.
- O enfarte, a trombose, a hemiplegia, o câncer penosamente suportado, a senilidade prematura e outras calamidades da vida orgânica constituem, por vezes, dores-auxílio, para que a alma se recupere de certos enganos em que haja incorrido na existência do corpo denso, habilitando-se, através de longas reflexões e benéficas disciplinas, para o ingresso respeitável na vida espiritual (Xavier, 1976, p. 261 e 262).

Resignação



Estabelecer uma relação de paz com a minha história, com a minha realidade.

Bem e o mal sofrer



Quando o Cristo disse: "Bem-aventurados os aflitos, o reino dos céus lhes pertence", não se referia de modo geral aos que sofrem, visto que sofrem todos os que se encontram na Terra.
(Lacordaire)

"Não basta sofrer simplesmente para evoluir moral e espiritualmente. Indispensável é saber sofrer, extraindo as boas lições de cada vivência por mais difícil que pareça."
Emmanuel/Chico Xavier - Livro Vinha de Luz - item 80

O desânimo é uma falta. Deus vos recusa consolações, desde que vos falte coragem.
Ele já muitas vezes vos disse que não coloca fardos pesados em ombros fracos.
O fardo é proporcionado às forças, como a recompensa o será à resignação e à coragem. (Lacordaire - Havre, 1863)

BEM-AVENTURANÇA NA DOR


- A dor não é castigo: é contingência inerente à vida, cuja atuação visa a restauração e o progresso.

- A dor-expiação é cármica, de restauração, é libertação de carga que nos entrava a caminhada; é reajuste perante a vida, reposição da alma no roteiro certo. Passageira, nunca perene.

- A dor-evolução, tem existência permanente, embora variável segundo as experiências vividas pelo espírito. Ela acompanha o desenvolvimento, é sua indicação, é sinal de dinamização, inevitável manifestação de crescimento.

- Jesus, quando falava de dor, sede e fome, referia-se à dor-evolução, à dor insita no crescimento do Espírito impulsionado pela fome de aprender e pela sede de saber. (Curti, 1982, p. 39).

Auto-exame



Perguntar-se:

- O que preciso aprender com essa experiência?

- Que lições a vida está tentando me ensinar?

- O que preciso modificar na minha vida?

- Como me relaciono com Deus, com o próximo e comigo mesmo?


COMO É A MINHA VIDA?



?Estuda e estuda-te?
Joanna de Angelis

Mudanças de atitudes



Mudar a atitude mental: Cada mente vive na companhia que elege para si mesmo;

- Direcionar a atenção para coisas positivas (a oração, boa leitura);

- Vigiar os pensamentos deprimentes e negativos, fugindo do desânimo e da apatia.

Espiritismo: a reforma moral


"Não esqueçais que o fim essencial, exclusivo, do Espiritismo é a vossa melhora?
Allan Kardec

Perguntas que não querem calar



É o Espiritismo uma doutrina que faz elogios à dor?

- Não, o correto é entender que o Espiritismo, alinhado com o pensamento de Jesus, tem como proposta fazermos da dor e das dificuldades um desafio para aprendermos, para amadurecermos, para avançarmos mais.
- A Doutrina Espírita não nos estimula a ficarmos paralisados na dor; ao contrário, nos ensina a seguirmos em frente a partir dela.


Reflexões finais


Kardec, ao compor o capítulo da Bem-aventurança dos aflitos, juntou três bem-aventuranças:

- A Bem-aventurança dos que choram - RESIGNAÇÃO

- A Bem-aventurança dos que sentem fome e sede de justiça - INQUIETAÇÃO

- A Bem-aventurança dos que são injuriados e perseguidos por causa da justiça.- INQUIETAÇÃO

- Inicialmente, é preciso ter um coração que renuncia e se resigna.

- Há que se tomar cuidado, pois a recusa à ação, o horror ao esforço, o receio do compromisso e do fracasso podem nos tornar pessoas apáticas e mornas.

JESUS



- Não ter necessidade da dor

- Perda de função

- Saúde total

- Pode ser opção do missionário

- Bem sofrer

- Aprender a tirar proveito da dor

- Usar da sua função

- Conhecer a verdade

- Aceitação

- Causa e efeito

- Responsabilidade

- Não-aceitação

- Revolta

CONCLUSÃO



- "Saibamos sofrer e sofreremos menos".

- Eis o que devemos nos lembrar em todos os estados depressivos de nossa alma, a fim de nos fortalecermos para o futuro.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA


- CURTI, R. Bem-Aventuranças e Parábolas. São Paulo, FEESP, 1982.
- EQUIPE DA FEB. O Espiritismo de A a Z. Rio de Janeiro, FEB, 1995.
- FERREIRA, A. B. de H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, s/d/p.
- IDÍGORAS, J. L. Vocabulário Teológico para a América Latina. São Paulo, Edições Paulinas, 1983.
- KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed., São Paulo, IDE, 1984.
- XAVIER, F. C. Ação e Reação, pelo Espírito André Luiz. 5. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1976.

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